Imigração

Recorde de pedidos de residência no Paraguai expõe denúncias de propina em Migrações e Interpol

Paraguai bate recorde de pedidos de residência e gestores de documentação denunciam cobrança de propina para destravar processos em Migrações e na Interpol.

Redação PY2BR

Atualizado 21 de jul. de 2026 · Fonte oficial: consultar

O Paraguai nunca recebeu tantos pedidos de residência quanto agora, e é justamente esse recorde que estaria alimentando um esquema de propina dentro da Dirección Nacional de Migraciones e da Interpol paraguaia. A denúncia, levantada por gestores de documentação e por estrangeiros e publicada pelo site argentino La Política Online, aponta que funcionários estariam cobrando "pagamentos extras" para acelerar, liberar ou simplesmente destravar processos que ficam parados sem justificativa.

Os números por trás da denúncia são reais e vêm da própria Migraciones: 47.687 pedidos de residência em 2025, 63% a mais que em 2024, e mais 27.809 só até maio de 2026, um salto de quase 70% na comparação anual. No primeiro trimestre deste ano foram 18.071 solicitações, 85% acima do mesmo período de 2025. O Brasil sozinho responde por 64% desse total, de longe a maior nacionalidade entre quem busca se radicar no país. Quem lê esse número tende a comemorar: mais gente confiando no Paraguai como destino é, em tese, uma notícia positiva. O problema é que ninguém comemora fila maior sem perguntar quem está cuidando dela.

Mão carimbando um documento sobre uma mesa, representando o trâmite de processos oficiais

Um sistema pensado para poucos agora atende multidão, e é aí que mora o risco

Segundo a reportagem, o esquema funcionaria de um jeito simples de entender e difícil de provar. O processo formal tem prazo legal de até 90 dias para ser resolvido, conforme a lei 6984/2022, mas na prática os trâmites administrativos internos raramente ultrapassam 45 dias quando andam sem entrave. A denúncia é justamente sobre o que acontece quando um processo trava sem motivo técnico aparente: aí, segundo os relatos colhidos pela reportagem, aparece a oferta de "resolver mais rápido" mediante pagamento por fora.

Os valores citados variam por perfil do solicitante, o que por si só já é um dado revelador: cerca de US$ 300 para sul-americanos e até US$ 2 mil para europeus ou chineses. Do lado da Interpol, os relatos falam em G$ 112 mil por trâmite mais G$ 150 mil adicionais por certificado, cobrados à parte das taxas oficiais. Uma frase citada pela reportagem resume o mecanismo de intimidação por trás da cobrança: quem pede o comprovante do pagamento oficial correria o risco de ver o próprio processo travado como retaliação.

As acusações miram diretamente a falta de controle sobre uma instituição de peso regional. "¿Cómo es posible que una institución con renombre internacional pueda estar cobrando por un servicio sin prácticamente ningún control?", questiona um dos denunciantes citados pela matéria. É a pergunta certa, mas vale fazer outra: por que o aumento repentino de demanda não veio acompanhado de mais fiscalização, e não só de mais fila?

Diante disso, os denunciantes pedem ao ministro do Interior, Enrique Riera, que determine auditorias de ofício, ou seja, investigações administrativas abertas pelo próprio governo, sem depender de cada estrangeiro prejudicado ter coragem (e provas) para formalizar uma queixa individual. É uma diferença importante: esperar que a vítima denuncie, numa relação de poder tão desequilibrada, tende a produzir poucas denúncias e muito silêncio.

O que a reportagem não prova, e por que isso importa para quem está no meio do processo

Importante separar denúncia de comprovação. O que existe até aqui são relatos de gestores e estrangeiros recolhidos por um veículo de imprensa, não uma condenação, uma auditoria concluída ou um processo judicial transitado. Isso não torna a denúncia menos séria, mas significa que atribuir o problema a "toda a Migrações" ou a "toda a Interpol" seria um exagero que a própria reportagem não sustenta. Para confirmar um esquema desse tipo seriam necessários registros de pagamento, mensagens, identificação de servidores específicos e, de fato, uma auditoria ou investigação formal, exatamente o que os denunciantes estão pedindo.

Para quem está no meio de um processo de residência no Paraguai agora, a notícia serve como alerta prático, não como motivo de pânico. Pague apenas as taxas oficiais e sempre peça o comprovante correspondente. Desconfie de qualquer valor apresentado como condição para "destravar" um processo que está parado. Peça ao seu gestor ou despachante que discrimine por escrito, em documento separado, o que é taxa pública e o que é honorário profissional, porque confundir as duas coisas é exatamente o tipo de zona cinzenta que esquemas assim exploram. Guarde mensagens, recibos, nomes de quem atendeu, datas e o número do expediente do seu processo: é a única forma de transformar uma suspeita pessoal em algo que pode virar denúncia formal, caso necessário.

O recorde de pedidos de residência é, de fato, um sinal de que o Paraguai virou destino real para brasileiros e não só uma alternativa teórica. Mas quem depende desse processo para trabalhar, abrir empresa ou simplesmente morar em paz não ganha nada com estatística bonita se o balcão do outro lado continuar funcionando sem controle.

Escrito por Redação Portal Paraguay para Brasileiros